Notas Sobre o Amor – Por um Careta Liberal

Ah, essa vida amorosa que as pessoas falam que existe e que só sei através dos filmes, e já cheguei aos 35 anos, caramba, estou velho (nem tanto), mas tudo bem, converso com as pessoas, e o que era recente, como “Anos Incríveis”, as duplas sertanejas da suruba “Amigos”, “Sessão da Tarde” nos bons tempos e outras coisas, sem falar dos acontecimentos históricos, parecem que foram apagados, e jovens de Direita Radical surgem por todos os cantos, jovens que ignoram certos tempos e não percebem que muitos dos velhos caducos (perseguidores da liberdade) ainda estão vivos e são mentores dessa galerinha que os endeusam, deixa pra lá, melhor nem pensar nisso, minha vida amorosa ultimamente entra em conflito com aquilo que o sociólogo Bauman analisou, são tempos líquidos, de fluidez nos relacionamentos, onde muitos vestem o manto de “Não queremos nada sério” e aí fica complicado, sei que é careta de minha parte falar pró laços e relacionamentos firmes, falar pela monogamia, e olha que sou um porra loka de coração, desde sempre escrevo pelas liberdades, falo da utopia de uma Terra de Ninguém, onde todo mundo é de todo mundo, mas talvez tenha saído pela culatra, muito difícil encontrar alguém que queira criar um vínculo, o que só se dá através da permanência. Bem, minha vida amorosa está bagunçada, estou aqui em 2017 escutando moda sertaneja dos anos 90, e olha que sou um cara do rock, da porrada, mas se está tudo perdido vou me prender nesse túnel do tempo que não faz sentido algum, possivelmente isso nem encontre as páginas de um livro, será visto num Blog, e-book ou Wattpad, vixi, aí dá pane e tudo se perde, e procuro o arquivo em um pendrive e ele buga (como muitos já bugaram) e não há HD externo que salve tanta memória...

Voltemos ao amor, parece mero detalhe já que me vejo em estado realmente bizarro, numa posição estranha de se entender, já diria o filósofo das antigas, vamos lá, 99% das pessoas me tratam com carinho, extremo carinho, e é natural que eu já tenha caído em diversas ciladas, confundido carinho com alguém tentando se relacionar amorosamente/sexualmente comigo (e olha que a questão sexual aqui é só pra ilustrar uma companhia carinhosa. Um parceiro ou parceira que diga que sou dele/dela já estaria de bom tamanho. Viu só? Estou abrindo mão de sexo, isso quer dizer muito, e pra não ficar dúvidas, falo de namoro convencional careta mesmo, de relação com metas para ambos viverem juntos e toda patifaria que os romances de banca de jornal nos ensinam e que tanto odeio), mas bora lá, não acabou, ao longo dos 35 anos confundi muito carinho de amigo com isso, e levei uma fortuna de foras, tocos incríveis que formariam uma bíblia, sabe porque? Porque sou gente boa, sou o cara legal, o mascote (literalmente já fui mascote quando estudava), não estou aqui para escrever “Todo Mundo Odeia o Chris” que a meu ver nem é tão antigo assim, mas voltemos, perdi os parâmetros e não arrisco mais acreditar que alguém não faça parte dos 99%, e aquele 1% que a música diz que é de vagabundos, bem, este 1% está interessado em mim com outros olhos, ótimo, isso é maravilhoso, tudo que sempre procurei, mas também não adianta, já que estas pessoas ficam na delas, não me falam, não são explícitas, criam jogos ridículas onde preciso adivinhar os sinais, é um martírio, porque tais sinais não se diferenciam em nada dos falsamente enviados pelos 99% que me têm como irmão, e por medo de não pagar um mico dantesco, de não estragar amizades ou de não deprimir, não posso fazer nada, é como caminhar no escuro, 1% na prática dos sinais é igual aos 99%, e como as probabilidades são maiores para o lado da friendzone, é melhor ficar na minha, torcer para que sejam explícitos em suas intenções, e não serão... Só me resta dançar um tango argentino, já diria Bandeira.
Imagem: Anne Lowe via publicdomainpictures
Mas muitos me admiram, mesmo eu não sendo nada e talvez sem possibilidades de vir a ser... Bem, sou educado, gentil, modesto, criativo, bom papo, mas não tenho aquela quentura que o povo quer, pois é, ser o garoto tímido num futuro hiperssexualizado é uma grande bosta, as/os Nerds querem Thor’s com peito de fora ou Viúvas Negras peitudas... Ainda mais depois do Boom da Nerdisse, todo Nerd é descolado à La Big Bang, com seus empregos que remuneram bem, suas namoradas ou namorados que parecem saídos de catálogos de revistas de lingerie, pois é, bizarro, eu sou da época do cuecão, de ser jogado no lixo, e minha nerdisse (que existe sim e é forte, pode me perguntar sobre qualquer coisa que em 80% das vezes respondo, e se não souber darei uma resposta criativa que vai fazer valer à pena), bem, minha nerdisse me levou a um emprego medíocre na periferia, tenho que pegar fila em banco, ser roubado na esquina, caminhar cabisbaixo ao trabalho porque odeio tudo lá, e chegar tarde para capotar e tentar ver o novo episódio de minha série favorita porque só elas me trazem algum alento... Só não viro a “louca dos gatos” porque meu gato morreu (em meu colo) com pedras na uretra (verdade), depois troquei por uma cachorra e ela morreu de velhice após cair da escada. Posso estar exagerando, mas na prática é isso mesmo...
Voltemos. Existem aqueles que me admiram, e alguns surgem com propostas para ficar comigo, mas existe um problema, 50% é comprometido e 50% só quer curtição, não existe alguém desimpedido que queira algo sério... Tenho 35 anos, e como Ingrid Guimarães disse em “Sob Nova Direção”, não tenho idade para perder tempo com certas coisas, gente comprometida dá muito trabalho e dor de cabeça, não nasci para ser o Ricardão, teria que ter um desempenho sexual além daquilo que talvez eu possa, e preciso de tempo para me ligar ao outro, preciso conhecer, pegar confiança, toda essa porcaria; e a parte desimpedida não é grande coisa, são aqueles (geralmente mais jovens, ultimamente não está difícil achar gente mais jovem que eu, e a tendência é aumentar de quantidade), bem, esse povo só quer mesmo curtição, aquela coisa da rotatividade, você se sente um carro num test drive, é quase uma entrevista de emprego (e olha que tenho histórico de desemprego, fiquei desempregado, depois de completar meus 18 anos e me formar em Publicidade e Propaganda, por timidez e bombar em entrevistas, dos anos 2000 ao ano 2008), a pessoa vai lá pensando em se divertir, te encontrar numa praça para uma punheta ou/e um boquete ou qualquer porcaria assim, e depois é cada um para seu canto, finge que está fragilizada por algum grande amor rompido, efeito dominó nesta sociedade líquida, porque como fazem comigo, já fizeram com elas, é tudo descartável, estão todos ruídos e é duro, tiro meu pé para fora desse teatro lamentável, não estou numa entrevista de emprego... Eu lá me entregando, a pessoa só pensando em quem será o próximo da fila, e eu todo envolvido, achando que vamos passar uma tarde conversando e falando da vida para sentir aquela mágica do olhar e sentir que há alguém que se importa, mas é ilusão... Eu não me entrego aos passageiros, aquela máxima moderna de “Enquanto a pessoa certa não aparece você se diverte com as erradas” é uma grande bobeira moderna para não se apegar a ninguém; e todo mundo tem o ego lá no alto, todo mundo quer ser conquistado, todo mundo quer que alguém lute por ela, oras, não precisa dessa arena, é só sermos duas pessoas dispostas, não, os opostos não se bicam, os dispostos talvez, e ninguém está disposto. Eu não me ligo aos passageiros porque sei que vou me apegar, e a pessoa não vai, então, para minha segurança e para não acumular mais uma página traumatizante à autobiografia, é melhor evitar apego aos desapegados.
Mas existem outras pessoas, aquelas que parecem que são perfeitas e foram criadas pela revolução online, as pessoas distantes que nos amam, e muitas amam mesmo, são sinceras, mas diferente dos primórdios da Internet, ou dos lindos casos raros que conheço, não estão dispostas a fundir a cuca e acreditar que vale um esforço estar com o outro, não moverão céus e nem infernos para estarem com quem se ama. O amor não está na moda há séculos, é triste, uma verdadeira merda, eu até tento, fico aberto às oportunidades, mas elas não ficam e continuam a dizer que nos amam, só para ficarmos com aquela sensação de “Se quem não me ama não me quer, e quem me ama não me quer... logo... não dá certo de nenhum jeito”, prefiro acreditar que não era amor de verdade.
Fico mais velho e fico mais sensível, apegado, e já escrevi páginas e páginas sobre amores transgressores, sobre trios amorosos, sobre grandes putarias, e tudo o que não quero agora é putaria vazia, pois é, envelhecer nos transforma em hipócritas, tudo bem, sou um cara aberto e com feridas expostas onde alguém joga sal. E olha que sou da geração total flex, muitos podem dizer que “Bem, você tem chance com todos então”, negativo, a coisa é pior, se antes eu podia ser ignorado por metade dos sexos existentes, agora posso ser ignorado por todos.
Só para concluir essa matemática, chegamos ao seguinte resultado:
99% não me quer senão como mascote, bom evitar qualquer coisa diferente de amizade com estes, sei o quanto é difícil confundir as coisas. 1% me quer realmente, mas não são explícitos, na dúvida é bom ficar na minha, e muitas vezes quando são explícitas é aquela coisa de querer ser conquistado, ser disputado, ai meu Deus, ai de nós, qualquer um que dispute qualquer um comigo já ganha, sou um inarticulado por natureza, um perdedor... Temos os curtidores comprometidos e os livres, os livres não querem nada sério, e dos comprometidos é melhor ficar distante. Acho que é o cenário atual. Não falei dos distantes, porque deles, 0% acreditam em qualquer possibilidade de concretizar algo e logo estão em outra, ou descubro depois que sou mais um possível impossível numa lista de tantos outros que seriam igualmente válidos, o amor não é a chave aqui, a chave desempata no mais próximo, gente, sentimento não vale nada, artigo em falta no mercado.
Quando foi que virei um utopista das relações humanas? Eu, tão careta, tão porra louca, roqueiro arrogante, e escutando sertanejo dos anos 90 numa manhã de segunda-feira em minha casa. Acho que cheguei finalmente ao Admirável Mundo Novo. Viva la modernidad!

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