Eu Não Sou Teus Betas

O problema de Pierre Carlô foi estar apaixonado por uma puta escritora, não que fosse puta, mas era foda... Em tempos de mediocridades transcritas, viu-se diante o texto mais inventivo e curioso da nova era, concluindo que Mirela Garceta não era desse planeta. No começo ficou indignado, odiava quando o confundiam com um leitor Beta e o tratavam como se o texto que fizessem fosse a maior dádiva do mundo, então se fechava em sua arte e tentava driblar os trocentos textos lançados ao léu. O problema é que Mirela se achava com passe livre para atochar à força suas dedilhadas palavras, não pedindo licença e mandando o arquivo.

Pierre Carlô, apesar de ranzinza, admirava Dona Garceta e não se aproximava com intuitos exclusos, a mulher era Popstar virtual, sempre que postava uma máxima ou poesia erótica, centenas de likes surgiam antes mesmo dos admiradores terem tempo para ler, todos masculinos, como se as clicadas fossem dedos masturbatórios no ego da “linda” e estranha mestra das palavras. Pierre gostava mesmo dos textos, mas mantinha-se distante, e sempre que abordava a amiga para prosear, deixava claro que não tinha interesses amorosos e que não era mais um dos tantos analfabetos que a curtiam na esperança de ter o corpo na prática daquilo que os versos diziam... Ele a conhecia bem apesar de pouco tempo, e sabia pelas confissões femininas, que nem sempre os textos eram sobre ela, etc... Naquela noite se viu numa cilada digna de um Neandertal quando a mulher desovou um texto inteiro e inédito num link privado; longe das máximas limitadas por caracteres ou poesias luxuriosas para causar impacto sem contexto, enviou um conto de 4 páginas, ele torceu o nariz, nada pior do que ser escritor em busca de seu público e ser confundido com o público de outro escritor, mas tudo bem, daria uma chance, ela tinha mesmo passe livre, e ele já a admirava além do corpo, e outra, antes de ser escriba, era bom ser leitor, e talvez a única diferença entre um mestre desconhecido e um conhecido seja mesmo o reconhecimento.
Imagem: George Hodan via publicdomainpictures
Respirou fundo e... Empurrou com a barriga. Quando chegou à madrugada não pôde esperar, leu numa tacada. Olhos procurando erros, recalque na veia, surpresa e por fim... Iluminação. Havia vida inteligente entre os milhares de escritores que se espremiam em busca de atenção! Era definitivamente arte, da mais pura, Mirela Garceta não devia em nada a Clarice Lispector ou Hilda Hilst, e o melhor, tinha algo que faltava aos milhares: originalidade e personalidade. Pierre sentiu raiva por imaginar que o mundo literário fosse talvez exclusivo aos seres de contatos e influências, foi como se deparar com um texto já consagrado, vindo de uma pessoa tão insegura e que talvez nem lutasse por si e nem se levasse a sério, e pior, aqueles punheteiros de meia-idade que a curtiam sequer conheciam a magnitude da genialidade além das poucas frases eróticas. O pior sentimento, que fez Pierre Carlô derramar lágrimas de frustração, foi que não era mais capacitado a elogiá-la, maldição de amigo “beta”, a regra era clara “Um amigo não é um crítico confiável”. Ele estava encantado pelo texto e enxergou pela primeira vez algo além das palavras, uma mulher fascinante, para ele o amor verdadeiro era arte + admiração + sagacidade, e tão miserável se viu, reduzido a mero pretendente amoroso na fila das mil curtidas, onde os nojentos de meia-idade pareciam agora tão mais interessantes, que toda futilidade da insegurança aflorou “Meu Zeus... Estou apaixonado... Como explicar que não sou mais um que deseja tê-la em sua vida? Ela nunca vai acreditar”.

E foi assim, apaixonado, triste e frustrado diante o gênio inacessível, que decidiu... Escreveu uma crítica sincera, tentando mostrar o quanto ela merecia espaço entre os grandes, e enviou, talvez sabendo que não seria levado à sério, amigos não têm credibilidade para criticar, ela ficaria no escuro e insegura (Era sábia para não se deixar levar por elogios), e para não piorar, decidiu guardar o amor para si, não forçaria a barra!

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