Aquela Exclusividade de Latrina

Madrugada tensa com o dedo na tomada e pés num balde d’água, foi questão de segundos para não sofrer (ou se foder), enfiou o dedo bem na hora que a energia foi cortada. Desalento e riso.
Deixou pra lá, mas não o julguem suicida, estava bêbado e queria sentir um barato, foda-se... Barriga revirando, dobrou o corpo e vomitou dentro do balde onde estavam os pés, depois, cerejinha do bolo, a energia voltou, os dedos ainda plugados sentiram a corrente, corpo eletrificado, cortando a espinha, pêlos, pernas, pés e explodindo na água, jogando o pútrido líquido para todo lado.

Imagem: George Hodan via publicdomainpictures
Tentou ignorar a desgraça, e só não foi pior porque a energia “voltou a acabar”, tirou os pés do balde, pegou a toalha e limpou a porcaria do corpo.
Madrugada adentro, sem pensamentos, o celular tocou, WhatsApp, uma amiga insone chorando por qualquer merda da vida, lá foi ele, não era bem de dar conselhos que servissem para salvar vidas, pra falar a verdade era niilista, achando tudo inútil, e sabia, analisando o passado, que seria perigoso para ela se abrir com uma mente mais límpida, somente uma alma aflita consegue falar com outra alma aflita, almas felizes (ou não tão dramáticas) são como tijolos em teto de vidro, que deixam o aflito desabrigado e não dão conta do recado. Nosso ilustre vomitado deitou na cama suja e tentou interagir, fazer seu papel de bóia. Enquanto aconselhava pensou “É realmente estranho, já dei em cima dela e hoje ela está supostamente feliz com outro... agora escolhe a mim como conselheiro. Parece não haver exclusividade de latrina para quem diz nos amar’.
Foi digitando e repensando a vida, fazia total sentido, a pessoa que nos ama sempre segue a tendência de querer largar o parceiro ou parceira ao perceber que não basta como “Final Feliz de Conto de Fadas”, e que, apesar de amar o “depressivo”, não basta um amor para quem sofre. Ela tinha escolhido nosso vomitado para chorar porque o mundo não a agüentaria, e ela não queria perder o “amor atual” despejando seu lado Maria do Bairro. Havia ironia decadente nisso, não se é verdadeiramente feliz com quem não aceita tanto nosso médico quanto o monstro (ou se é?), antes tivesse escolhido o conselheiro, que vomitado e fodido, entenderia cada lamúria... Talvez fosse melhor assim, viveriam num mar de lágrimas se estivessem juntos e talvez o desespero unido tivesse dado cabo dos dois. Ah! Esses amores... Só os simples se toleram, matemática dura: “Feliz + Feliz = Simplicidade sem intensidade”, “Feliz + Triste = Decepção do Feliz e Solidão do Triste”, “Triste + Triste = Suicídio Mútuo”, lamentável, só há mediocridade, incompatibilidade e autodestruição.
Terminou o conselho evocando o bom e velho humor negro, depois olhou para si, sujo, cansado e no escuro, ficou sem dormir até às 6 da manhã, estava tudo errado, sentindo-se fútil por ter mentido que a vida valia nossa insistência, não acreditando em uma palavra do próprio conselho. Ridículo.
O sentimento foi piorando até ser ele quem precisava de ajuda, fuçou o celular para encontrar alguém “bem resolvido” existencialmente. Merda. Tomou banho, pés queimados, água fria, depois deitou, tinha que dormir rápido para outro dia de trabalho, revirou na cama e só pôde se digladiar em pensamentos torturantes:

“Putz, ela bem que podia ter me escolhido”, dormiu assim, encucado e revoltado consigo mesmo, justo ele que achava não se importar.

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