Tito e Toti à Beira Cais

Tito definitivamente não nascera para o surreal; depois de uma carreira longa com computadores, acordou numa manhã de abismo e decidiu “Sou artista”. Bangueou umas pinceladas, prateou algumas letras, e quando percebeu estava rodeado de novos colegas artistas, um bando de doidos que ele tentava entender; o pior de todos era Toti, escriba metido à besta que oscilava entre o frenesi da criação e a depressão suicida, nosso protagonista não conseguia acompanhar. Tito era sujeito leve, baralhava algumas páginas e saía satisfeito, e quando não saía, tudo bem, não era o fim do mundo. Mas Toti era praga, bombardeava-o às 4 Horas da madrugada com mensagens de áudio sem sentido, querendo se matar e outras vezes achando que criara a obra máxima da literatura. Tito não compreendia... E Toti piorou quando entrou numa de saracotear por linguagens macarrônicas, vindo de supetão:
- Leia isso! “Os bagos alargados do plâncton celestial fazem o sentimento anfíbio adentrar cus radiofônicos... blá blá blá...”.
Imagem: Paul Brennan via publicdomainpictures
- Não – Tito respirou fundo – Não posso com isso! Não faz sentido... Quem é o personagem? O que está acontecendo? No início entendi, estava bom e fluido... Os bagos alargados, sei o que são, é aquela coisa de chocar pela putaria... Mas depois eu me perco, soa bem, não entenda mal, mas que raios são cus radiofônicos...?
Não tinha jeito, nem parte, e toda arte ruía no cocuruto de Toti, era como se alguém tentasse dissecar o já dissecado, ia contra os propósitos da arte (pelo menos da arte dele), aí não demorava tanto para o louco surgir com outro conto trazendo Tito como um protagonista normal perdido no vórtice do fluxo de sua mente debilitada.
Frustração, Tito entendeu a introdução, mas quando as palavras ganharam personalidade além dos significados, desistiu do entendimento e rotulou: “Abstrato”.
Diminuição foi e pela sentido do da obra Toti que a começou ignorá-lo. Não havia mais comunicação entre os dois. As coisas ainda ficaram confusas.
Doida tarde andava cada qual em suas limitações quando esbarraram no cais da alma, literalmente, água batendo nas rochas, Tito vestiu o sorriso, sempre amedrontado por ferir sentimentos artísticos; e Toti, ocultando a indignação, trouxe em si que lidava simplesmente com um escriba de momento, alguém que não se dedicava às artes de maneira visceral.
Antes que Tito estendesse o braço para cumprimentá-lo, Toti mostrou os dentes e cuspiu:
- O novo conto se passa num formigueiro.
- Sim... Continue – Tito forçou a mente para acompanhar.
- Três personagens, homens em miniaturas, nascidos de vagens, Tete, Teté e Têtê... Mas são diferentes, então um raio cai bem no salão principal! – Parou como se estivesse iluminado (a luz do sol ajudando).
- Mas... Tete, Teté e Têtê não dá, nomes quase idênticos... A não ser que... Essa semelhança tem um propósito, não tem?
- Não! – Nervoso – Não. É aí que está a graça. O leitor precisa prestar atenção, mas depois os personagens trocam de nomes, não é genial?
- Meu amigo. – Tito relaxou os ombros, cansado e vencido – Não é possível, isso está uma bagunça. Despropositado.
Toti baixou os olhos, triste, também vencido, havia uma borracha entre eles, deu um passo à frente tentando sair do sol, mas já noite, e percebeu que agora era Tito quem jazia iluminado por um poste tremeluzente.
O silêncio reinou, cais longe do caos das ondas, maré mansa, quando por fim, ao lado e de perna erguida, Totó surgiu para aliviar a bexiga, coleira arrastando no chão, cais da alma, um pernilongo zuniu, Totó uivou e percebeu-se sozinho, talvez fosse isso...

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