Aquele Que Nos Escuta

Talvez a sociedade estivesse farta de seus suicidas, se antes ainda tinham paciência e coragem de escutá-los, conhecendo assim um mundo pesado e sem máscaras, agora nem se davam ao trabalho, ou ignoravam ou entregavam de cara o número do “Disk Deprê”, como quem tira o corpo da reta e resmunga “Não venham nos encher, existem profissionais para escutá-los”, e assim a banda seguia, o mundo floria, bebês nasciam e homens morriam pela constatação de qualquer ajuda não vir de alguém que realmente se importava, mas de alguém que trabalhava com aquilo, ou seja, ajudá-los não era mais que uma obrigação fria empregatícia.

Imagem: Dawn Hudson via publicdomainpictures
Joremar era o melhor exemplo desse tipo de profissional, acordava cedo, pegava o trem lotado, e depois de duas horas e meia chegava ao trabalho, prédio velho, décimo andar alugado pela prefeitura, sem ventilador ou ar-condicionado, e sequer recebia pra isso, mas não podemos dizer que sua intenção era de salvar o mundo, precisava da assinatura de alguém no contrato de estágio, penúltimo ano da faculdade em Assistência Social. Joremar muitas vezes chegava puto, cansado e com fome, duas DP’s para resolver, e a única coisa que servia de incentivo para salvar vidas era a quantidade de horas acumuladas no contrato, empresa rígida, demitia qualquer um que não salvasse um desesperado, foi ali que se tornou expert em benevolência e bom coração.
Tudo caminhando bem, mais um dia de trabalho, desafio mental, não empatia. Sentando-se à mesa assim que o telefone tocava, atendia com os olhos no relógio, quanto mais rápido sua mente encontrasse o caminho à salvação do outro, mais rápido atenderia outro, e mais outro e outro mais... Dedicar-se por completo a um era deixar que outros morressem... E com as mortes viria o fim do estágio e sabe-se lá quando sairia daquela faculdade.
“Disk Deprê” não era a melhor empresa, mas o que fazia podia ser colocado no status do Facebook e render algumas tietes que amam “gente que se importa com gente”, quem sabe não ganhar umas trepadas com o status? Tudo é possível.
Joremar era mesmo dedicado, tendo até conseguido atrair clientes com um viral interessante na Internet “Peço que pelo menos 3 colegas colem o número do Disk Deprê em suas páginas e copiem o número para o celular, depressão e suicídio são coisas sérias, liguem para um profissional, liguem para quem se importa”, batata, a corrente se alastrou em pouco tempo, o telefone não parou de tocar, um mais fodido que o outro. Claro que o rosto de Joremar ilustrou o retrato de “Funcionário do Mês”, não ganhou um puto, mas levou dois tapinhas nas costas, se é que isso salva alguma vida!
Seria uma reviravolta interessante, mas esperada, dizer que acabou deprimido e sem ter para quem ligar; no início foi confuso, as DP’s se acumularam na mesma proporção que as horas aumentaram, formar-se virou algo impossível, gênio na prática, ameba na teoria, passou semanas achando-se um inútil, e sem rumo viu que talvez pudesse se matar, desistiu; todo amigo que ele abordava com suas lamúrias indicava o “Disk Deprê”, o coitado piorou, isso porque os amigos ou não eram tão amigos à ponto de dar um ombro, ou eram os idiotas que trabalhavam com ele na própria instituição. Talvez tivesse caído num paradoxo do caralho. Os mesmos que diziam “Não somos capacitados, ligue para esse número” eram aqueles que possivelmente os atenderia fingindo se importar.

Mas calma, não estamos numa trama Hollywoodiana que rende indicação ao Oscar por sofrimento, ele largou a faculdade, abandonou o estágio (para desespero dos chefes que viram os números de suicídios aumentarem... sim, ele era bom), e sumiu do mapa.

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