- Maldita folga! – Gritou o professor de
cima da ponte.
- Calma, não se desespere – O policial
aproximou-se lentamente para não assustar o possível suicida.
- Mil raios partam aquela porcaria de
escola!
- Eu sei que não tá fácil, mas você não pode
desistir, acho que está estressado. Quem sabe não é melhor desistir, eu consigo
uma dispensa e você fica um mês em casa.
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| Imagem: Henry Yao via publicdomainpictures |
O policial estava ali há 2 horas e nada
do reforço chegar, sábado à noite, sabe como é, saíam pra ronda, mas paravam na
Boate Gozo Total, ninguém trabalhava, salário de fome, isso quando não apareciam
na mídia retratados como coxinhas de merda, e daí que fossem de merda? Agora,
sobre serem coxinhas, não sabia nada sobre isso... O problema é que Gregory
saiu atrasado da central, atravessou dois faróis vermelhos e não pôde seguir,
avistou o doido professor atravessando a rua com pressa e debruçando-se na
mureta, jogando livros ao rio e pronto para saltar. O guarda titubeou, “Sandrinha”
já reservada pra ele... Putz... Não havia noite melhor para um estranho se
matar?
Desceu da viatura, ergueu o braço,
franziu o cenho, revoltado e mirou a arma:
- Atenção, nem mais um passo... Se
tentar se matar eu atiro.
Ok... Soou estranho. O professor secou
as lágrimas, permaneceu mais pra lá do que pra cá, e pôs-se a monologar sobre
sua vida de merda, até esgotarem as lamúrias... E chegamos onde tudo começou,
quando Gregory ofereceu uma dispensa de um mês ao mestre.
- Tá doido? – Gritou o professor – Estou
na merda exatamente por ter ficado em casa.
- Senhor, eu preciso ir embora – Olhou
no relógio e pareceu triste – Na verdade tenho todo tempo do mundo. Como assim,
“Maldita folga?”.
- O esquema estava certo, tudo
orquestrado, trabalharia na festa junina da escola e ganharia 12 folgas!
- Doze folgas por um dia? Senhor... Não
sei o que dizer, o máximo que consegui na delegacia foi trabalhar de graça por
causa de um maldito evento nacional!
- Está tudo acabado. Eles estão
investigando a festa, posso ser exonerado. Puta que o pariu... Ninguém valoriza
o professor na porra desse país.
Gregory estava frustrado com a própria
condição, talvez pudesse mudar de emprego, impossível, era inútil pra qualquer
outra área, na verdade tinha um passado no tráfico de drogas, mas nunca foi
pego, o jogo virou, agora, ser policial ajudava a ter drogas de graça e ainda
descia o cacete em ex-meliantes rivais. Mas lidar com professores sempre fora
um campo minado, pior do que peitar a bandidos profissionais, nunca sabia como
a mídia reagiria a qualquer depoimento que os colocasse em xeque. Por isso
recusava trabalhar em manifestações educacionais, dor de cabeça por nada...
Pensou... Pensou... Lembrou dos três filhos que nunca tinham aula e voltavam
cedo pra casa, fazendo com que ele, pai solteiro, tivesse que se virar em mil
para criá-los... Revolta, país de merda:
- Doze folgas?
O professor não estava bem, puxou um
baseado do casaco e deu um teço, então relaxou os ombros e virou-se ao
policial:
- Tá tudo bem! Falta pouco pra minha
aposentadoria, e essas investigações vão demorar... Só fiquei puto por que... –
Encarou a arma do policial e sorriu debilmente... – Sei lá... Como eles ousam
me tratar assim?
O mestre deu um passo para trás da
mureta e tropeçou, o baseado caiu na calçada, e antes que pudesse se curvar
para recolher, ouviu os pneus da viatura cantarem pra longe, acompanhado de um
grito distante “Filho da puta!”, não conseguiu forças para retrucar, mas
resmungou para si mesmo “Coxinha”.
