Era o mestre das palavras e brincava com
elas da maneira que nenhum entendido em literatura conseguia suportar. Falastrava
suas entravas, caralhava suas navalhas, e poetizava o impensável. O impossível
para Felistroberto era simplesmente impassável. Encarava os olhos da sereia de
seus desejos e baixava algo como “Don Juan” dos gramaticados, burlo assim com
as palavras porque entre o erudito, o antigo, o moderno, o certo, aceitável e o
errado beirando à metida de louco, estava Felistroberto. Mas quem era esse
alheio às normas curtas da língua? Estreitando-se ora pois de seus vieses avessos, tagarelava de ouvido à ouvido suas ceras
eloqüentes.
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| Imagem: Erskine Rivera MErskine via publicdomainpictures |
Não! Não metamos o louco na narrativa,
metamos a língua onde queres o saber dos documentos sobre tal vida.
Felistroberto, mais conhecido como “Felis” com “S”, saltou para fora do
dicionário após o grande incêndio na Biblioteca Papelaça, logradouro onde
habitou por décadas, dentre uma poeira ou outra, poeirou, levantou, festejou, e
nem Veveta percebeu que haveria maneira melhor de chamar o povo do gueto...
bem, Felis sarapintagou pra fora antes que morresse dentro da brochura, e
depois, reconhecendo-se ao relento daquilo que chamamos “Real Life”, viu que a
vida ia muito além de seu jardim gramatical, um mundo sem fungo, “Só lhe
faltava essa”, cores, sons, cheiros e tudo sem descrições, ordenado pela
sensação de descobrir/colocar em prática o sentimento de ordenha, claro, depois
de três tapas e meio, desistiu, ninguém quis ordenhá-lo. Mas cá estava com seus
botões, só funcionava de forma inversa, enquanto em “Poeiras del Mal” tudo eram
palavras, aqui não havia necessidade de funcionar entre linhas, então entre o
resto ele se largou.
Felistroberto não seria dominado pelo
pânico, mas pela invencionice de sua nova forma e caráter, ecoando pelo
conceito e pela essência.
Paremos para broxar vossos paus ou xanas,
explicá-lo-ei que a anatomia do vulgo ex-gramaticado espécime, era por demais
demasiada reta, sempre vogalizado entre consoantes, apertava-se entre letras e
sinais, entre complementos morria, sufoco de ser, se antes fazia-se agora
tentava sedesfazer (assim junto ou assinjunto), quem sai perdendo é o “M”, difícil
estar entre. Suponha que o ponhamos depois do faz e antes do se, eis que em sua
forma via-se mero traço sem sonoridade (-). Assim viveu esmagado... mas agora,
do lado de cá, sabia realmente como ser a não sonoridade da beleza culta da
certíssima sentença (-), não mais havia um antes ou depois para unir, fez se
não se fazia, pois doutra forma - foi, ou no popular para leigos (doutra forma
traço foi).
Mas há reação ou ação nesta doida ou
douda jornada, pois doutro modo o douto Senhor Felis descobriu como ser entre
outros seres que menos eram e mais pareciam. O inenditificável Traçoberto
camuflou se traço entre a estranha gente das noites invisíveis. Não teve para
onde ir, parou embaixo da ponte, junto aos companheiros que, como ele, eram
todos essências sem antes ou depois, traços desdicionalizados, fora dos plurais
descontextualizados, chutados do alfabeto, nem letras ou vogais, é assim,
invisivelmente feito a não sonoridade, perdeu Fe depois Lis (de flor talvez),
tro, ber, to também... bem! É assim que a saga finda, um trocado e vai pra pinga,
impossível identificá-lo (é aquele no meio do cá e do lo), impassível, impassável...
raso e afunda fundo.
“Hoje tem lua no céu”, o fogo o libertou,
encara as brumas de cima, espreme traço se entre dois novos amigos e respira o
próprio fedor. Logo mais vem chuva, ótimo, precisa mesmo de banho, cantam
Vanessas ou Tins, “Hoje o céu está tão lindo!”.
